terça-feira, 14 de setembro de 2010

Roteiro, Parte 1 de 3


Algumas pessoas já haviam me pedido tutoriais de desenho, etc. Na verdade sou meio resistente a essas idéias porque acho que para fazer certas coisas não pode haver “receita de bolo” e principalmente porque acho que muito já foi escrito sobre estes assuntos, e com certeza eu não tenho muito a acrescentar.

Por outro lado, acho que posso falar sobre alguns aspectos mais “íntimos” (UI!) da produção, e compartilhar umas experiências. Rachel Sumeragi pediu e deu a sugestão de que eu começasse conversando sobre Roteiro, então aqui vamos nós...



Roteiro 1

Vamos direto ao ponto, não vou ficar com aulinhas, porque isto não é um curso, é uma série de conversas as mais francas possíveis sobre como se dá um roteiro, e como fazer a mágica acontecer. São coisas que se aplicam na raça, e podem funcionar tanto para quadrinho quanto para texto (ficção original, fanfiction, etc) ou outras produções do mesmo naipe. Quero dizer com isso que não sei porra nenhuma de cinema, muito pouco de literatura e alguma coisa de quadrinhos, mas como leitora e como já me vi escrevendo algumas ficções por aí, acho que sei mais ou menos como tornar minha vida menos infernal neste sentido.

Sim, o termo é este. Se você escreve e/ou desenha, sabe do que eu estou falando. Escrever para si mesmo é moleza, todo mundo sabe o que mais lhe agrada, mas quando você escreve para os outros, para o editor e para o público, algumas coisas são diferentes, e se puderem ser menos dolorosas, melhor ainda.


Acertando na mão – Como destruir um roteiro

Se é verdade ou mentira eu não sei, mas dizem que para cada escritor (autores em geral, não vou focar em nenhuma atividade específica) existe um roteiro ou um gênero específico. Acho esse tipo de colocação muito castradora. É o mesmo que dizer que quem escreve não desenha ou que quem desenha não consegue escrever. Mas o fato é que alguns autores se dão melhor em certos gêneros, onde ele – digamos – se move com facilidade.

Mas digamos que – não importa o gênero – você quer escrever um roteiro. Antes de tudo, posso dizer para ter a idéia e deixá-la de lado por um tempo. Sério. Dê um tempo nela. Veja se depois de uns dias, umas semanas ou mesmo alguns anos (como já aconteceu comigo) ela ainda te dá aquela vontade, se ela empolga. O nosso gosto muda, e isso vale para texto também. A idéia genial que você teve 5 anos atrás pode não ser nada genial agora.

Outra coisa, talvez até mais importante do que saber se a idéia ainda te empolga, é saber de antemão se você está preparado para ela. Isso mesmo. Não adianta dizer “ah, mas a idéia é minha, claro que estou preparado para ela”. Isso na teoria é lindo, mas na prática, sinto muito, isso não funciona. Vou explicar o motivo: às vezes o roteiro exige do escritor (e do desenhista, caso você vá escrever e desenhar o seu próprio roteiro, ou que o mesmo vá ser desenhado por outra pessoa) uma vivência que ele ainda não tem, ou uma compreensão de certas situações que ele ainda não possui. E digo mais, essa vivência só o tempo e muitas leituras podem dar, por que é nessa compreensão que ele vai começar a ter opções para definir o rumo do que escreve. E se for para desenhar este roteiro, é melhor – falando seriíssimo – que o autor tenha certeza de que é capaz de fazer isso: desenhar batalhas estelares, escrever cenas de sexo incendiário, mostrar a mente de um psicopata, criar uma atmosfera opressiva...

Além disso, já com a sua idéia na mão e os pés firmes no chão, por favor, tenha certeza de que este roteiro te pertence. Não estou falando em questões autorais, estou falando de realmente saber o que tem em mãos, ser capaz de executar e saber que pode tirar água dessa pedra. Não existe coisa mais trash do que o roteiro certo nas mãos erradas, ou uma forçada de barra óbvia e descarada. Quer um exemplo? Veja esta sinopse bem rasteira:

França, século XIX. O jovem Bernard, oprimido pela atmosfera lúgubre de sua casa e pela irmã mais velha e dominadora, se envolve com Julie, uma jovem misteriosa que ele conhece logo após o funeral de seu pai. Opondo-se por motivos desconhecidos a este romance, Sarah, a irmã de Bernard, tomada pela histeria, acusa Julie de um crime que ela não cometeu, o que faz a jovem ser perseguida até Paris. Mas Julie está grávida, e a única ajuda com que pode contar é de seu padrasto, um aproveitador de mulheres que a abandona às portas de um pintor decadente que vê em Julie a modelo ideal para sua obra-prima. Enquanto isso, Bernard segue em busca de sua amada, indo ao submundo de Paris, onde descobrirá a verdade a respeito de Julie, de si mesmo e do passado de sua família, tendo como pano de fundo os conflitos da revolução de 1848.

Este roteiro nas mãos da Chiho Saito teria virado um mangá shoujo para ninguém botar defeito, com todos aqueles olhos lacrimejantes, flores desabrochando, etc etc. Mas não, apesar de todo o aparente açúcar e de ter bebido na fonte dos romances clássicos, esta sinopse não pertence a um mangá. O que teria sido facilmente apenas-mais-um-shoujo nas mãos da Chiho Saito, nas mãos de Bernard Yslaire se tornou nada menos do que o divisor de águas do quadrinho europeu. E fez escola.

Viu só? E o que teria sido do filme Inception, dirigido por Christopher Nolan, se houvesse caído nas mãos do diretor Uwe Boll, de Alone in the dark? Por outro lado, é uma decisão perigosa ser um autor de uma obra só, como aparentemente a autora de Harry Potter se tornou. Ou ser um autor de um gênero só, como muitos roteiristas da Marvel parecem ser.


Ainda, escrever forçando a barra é uma espécie de suicídio. Vou explicar através de uma experiência pessoal. Passei anos tentando me convencer de que gostava de shoujo e que deveria ir por aí. Não deu certo. Eu enquanto autora sou sanguinolenta demais, drama é bom, exagero também, mas tanto suspiro e lágrimas e ui-ui-ui não funciona comigo. Pois é, antes de você perceber que gosta de romance com muito açúcar e mesmo assim tentar (por exemplo) se tornar o rei ou a rainha do pornô, melhor pensar se vale a pena, ou se você topa encarar essa (pelo desafio ou pela grana) ou se prefere um meio-termo.


Sabendo o terreno em que está pisando, vamos à próxima parte:


O alvo – Objetivo e pensamento prático

Aaah, as coisas vão ficando mais interessantes agora. Já sabemos o que existe além da porta verde, então vamos começar a nos preparar para o que é a escrita em si. Definição de roteiro acho que não cabe aqui, porque como eu disse, tem várias lições postadas na internet que são mais didáticas do que esta.

Uma vez que sabemos o que vamos escrever (e isso vale para texto, quadrinho, etc), precisamos saber para quem estamos escrevendo. Sim, deve existir um alvo, caso contrário estaríamos escrevendo para nós mesmos e todo este falatório seria em vão. Você pode estar escrevendo para um público específico, mas a não ser que esteja bancando a própria publicação, a primeira pessoa que você deve agradar é o seu editor. A realidade é dura, mas é o sujeito atrás da mesa que tem de ser o primeiro a gostar do que você faz. Supomos que é porque ele sabe melhor do que nós o que vai bombar. Ou não. Equívocos acontecem o tempo todo, no mundo dos quadrinhos, do cinema, da literatura e da música. Então o negócio é arriscar.

Mas sendo direta, se você está escrevendo para marcianos, gregos, ou hobbits, o fato é que você tem de falar a língua deles, no sentido de criar um elo com o leitor e principalmente com o tempo em que ele vive. E por favor, POR FAVOR, não subestime o seu leitor, não importa se ele é o leitor habitual de fanfics, ou se é fã de Crepúsculo. Preste atenção no que as obras atemporais tem em comum: elas são legíveis em qualquer época. Escrever simples não é escrever simplório. É se fazer entender.

Um exemplo de obra que não se perdeu no tempo: o filme O rapaz solitário (The lonely guy), de 1984. Mais de 20 anos depois, este filme não perdeu a graça, porque fala de um tema (a solidão) que ainda é o problema de muita gente. Outro exemplo? O Exorcista, o livro mesmo. Décadas depois ainda dá aquela tensão ao ler o texto. Os grandes clássicos deveriam ser assim, atemporais, certo? Errado. Falando curto e grosso, os grandes clássicos na maioria são muito chatos, terrivelmente chatos. Mas por quê? Porque na época em que foram escritos aquela era a maneira de escrever. Mas hoje em dia, querer escrever com a pompa narrativa de Tolkien é algo para um nicho específico, e certamente vai afugentar potenciais leitores que vão ficar com medo de uma linguagem tão rebuscada. Isso não quer dizer que os temas dos textos (me refiro aos roteiros) sejam temas chatos. Moby Dick é uma história que seria adrenalina pura, mas a maneira que foi escrita acabou deixando o ritmo dela lento, ainda que menos chato que o habitual daquela época.

Entendeu? Você sabe o quê, e sabe para quem vai escrever, mas precisa saber como escrever. Citando um exemplo que me causa horror: texto para criança tem de ser para criança, mas (como a Taty, desenhista de Recife citou) um livro chamado “Tama, o tamanduá feliz” é brochante, isso vai destruir o cérebro das crianças. Mesma coisa (e isso já foi um pedagogo que disse na TV) é querer empurrar José de Alencar para os adolescentes. Isso cria um trauma pra vida inteira!! Então, melhor respeitar seu leitor, e compreender que você não é o Stephen King, não é o Tolkien e com certeza não é a Lia Luft. Independente de estilo – e isso você só consegue sentando e trabalhando duro neste sentido – não tente ser outra pessoa, ou o que vai escrever vai soar falso e forçado. Isso deveria valer também para quem desenha (eu me incluo).


Como eu disse antes, não ouse subestimar o seu leitor. Digamos que você está escrevendo ficção científica. O seu leitor dificilmente não terá esbarrado com ficção científica antes, pelo menos em um filme ou dois, ou uma HQ ou mais. Ele pode ser um leitor voraz de ficção científica, e aí? Nem todas a idéias são originais (é difícil ser original hoje em dia, aliás, impossível), mas a maneira que você vai trabalhar com ela é que faz a diferença, é onde você vai colocar o seu toque especial.

Mas o que você não pode, de jeito nenhum, é assistir o máximo de filmes de um determinado tema, animes, ler HQs, e ir dizendo “opa, legal, vou usar essa idéia na minha história!”. Não faça isso. O leitor vai saber, você vai saber, o seu editor (se for o caso) vai saber, e acredite em mim, já basta um Rob Liefeld no mundo. Nós não precisamos de outro. Seu roteiro vai ficar parecendo uma colcha de retalhos de idéias que não são suas, e que uma pessoa mais atenta vai ficar apontando “xiii, aquele robô é de Macross, aquele alienígena é de Avatar, aquelas roupas de couro são de Matrix, e aquele tiroteiro em um corredor girando é de Inception”. Vai por mim que você não vai querer ouvir um comentário desses sobre NADA do que você escrever.


Juntando os cacos – Coleta de informação

Esta é a sua munição, não pense nas suas idéias como algo diferente. E o embasamento das idéias é justamente a informação que você coleta em torno dela. Quero dizer, absolutamente qualquer informação relativa a uma idéia. Vamos exemplificar: você está com uma idéia de escrever uma história medieval com um pouco de romance, muita porrada, um conflito, e uma pitada de sobrenatural. Apesar de logo de cara eu poder dizer que você corre o risco de fazer algo como o roteiro da série em quadrinhos Os Companheiros do Crepúsculo (que falando nisso, tem um artigo excelente escrito pelo Rodrigo do blog Reminiscências de um Lorde Velho), ou mesmo por acidente emular algum filme que você tenha gostado muito (O Feitiço de Áquila, Kingdom of Heaven, etc), precisamos lidar com essa possibilidade e até certo ponto dar crédito ao que se tem em mãos.


Logo, se você quer um roteiro de época, melhor pesquisar um pouco sobre o que vai escrever. Um exemplo: homossexualismo na Idade Média? Beleza, mas como é que as pessoas da época lidavam com esse comportamento? O que a moral da época dizia sobre isso? Era crime? Quais eram os castigos? Quais eram as celebridades da época que não escondiam suas preferências? E aí por diante. E estou apenas citando um exemplo. Isso se aplica a outros aspectos, inclusive morais de cada época. E não apenas quanto aos temas, é melhor coletar alguma informação sobre arquitetura, vestuário (para não colocar zíper em roupa do século XV...) e outras coisas que são pertinentes ao seu roteiro.

Agora uma coisa que escutei uma vez, e vou repetir aqui: informação demais atrapalha. Quando se concentra demais a pesquisa, acaba apagando o brilho da trama em si, acaba apagando o brilho da criatividade na hora da escrita, da criação (a menos que você seja o François Bourgeon). E digamos que você está criando um “mundo novo” um universo à parte para as suas aventuras, melhor realmente saber o que está fazendo, porque a não ser que você se chame Jean Giraud (o Moebius), ou James Cameron, os seus problemas estão apenas começando. Neste caso convém ler um pouco sobre psicologia, um pouco sobre antropologia, mitologia... Nada disso será em vão, porque são coisas que podem ajudar em outras coisas que você vai escrever depois. Viu? Nada se perde, tudo se acrescenta. Mas para a escrita, saber selecionar a informação vale mais do que a quantidade que você tem dela.

Vou falar um pouco de como eu começo a coletar informação: quando eu tenho uma idéia na cabeça, ou eu desenho alguma coisa ou vou juntando informações que são pertinentes ao que eu penso. Recortes de revista de um determinado assunto, letras de músicas, se calhar algumas poesias, algumas anotações, talvez uma foto com o que eu imagino que será o cabelo de algum personagem, etc. Vale tudo. Coloque tudo numa pasta só, no computador ou uma pasta real, mas tenha isso tudo junto. Só quando começar a escrever de fato é que vai poder crivar o que tem aí. É quando começamos a perceber que a quantidade de informação pode ser um empecilho, porque você vai tentar colocar tudo de uma vez e não vai caber. Imagina: sua HQ de ficção científica de terror tem 20 páginas, mas você tem material suficiente para uma tese de mestrado de física quântica. Você perdeu tempo, juntando informações que não vai nem chegar a usar, está frustrado porque não conseguiu encaixar toda a informação que queria e o leitor pode, e vai, se cansar de tanto falatório.


Então se informação demais atrapalha, qual o limite? Posso dizer que o limite é o bom-senso, o que sozinho já é um conceito questionável o bastante. Portanto, se estamos falando em termos práticos, então a sua coleta de informação deve ser limitada ao que a sua idéia, o seu roteiro vai precisar. Não coloque recheio demais nesse sanduíche. Com isso na cabeça, e as informações certas no lugar adequado, vamos adiante...



Continua em Roteiro, Parte 2

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5 comentários:

youko-yoru disse...

\o/ MUITO BOM!! Vou indicar pra todos os meus alunos!

Blanxe disse...

Estou achando muito interessante esse post!

Vc citou muitas coisas que os autores realmente não levam em consideração ao criar um projeto...

Esperarei ansiosa pela segunda parte!

Fernando disse...

Muito Bom!!!
Você parece entender de Literatura/Cinema/Comics/Manga/Anime/Cartoon/e o Elemento X!

Parabéns, gostei muito!

Anônimo disse...

Muito bom mesmo! Parabéns :D

Anônimo disse...

Valeu mesmo heein, jáh tenhu idéia, só estou um pouco sobrecarregado de informações, mais tudo bem ><''

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