quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Cem anos de revisão - Por uma mudança de relações entre editores e manuscritos

Esse é um assunto que uma vez eu alfinetei comentei no Twitter, sobre a maneira que a maioria esmagadora das editoras lida com os originais recebidos. Eu sei que é assim que a bola rola aqui no BR (nem sei como acontece em outros países e nem faz diferença para nós), e que isso tem até ares de tradição, mas não me impede de ter opinião formada sobre o assunto.

Eu não sou muito familiar com esse negócio de envio de originais... Mentira. Sou sim. Mas eu também acompanhei a mudança dos meios de comunicação nesta tão prometida era de globalização. Meus professores do segundo grau pintavam a globalização feito uma espécie de apocalipse. Quanta ignorância...

Eu sempre escrevi: fanfictions, textos acadêmicos, ficção... Mas quando comecei a considerar enviar manuscritos para editoras, percebi que havia dois lados da moeda da tal globalização, e não é sobre o processo, mas sobre como as pessoas reagem à ele. Sim, precisamos ser críticos sobre isso. Vejam só:




Hoje em dia, a máquina de escrever foi substituída pelo computador; ao mesmo tempo, com a progressão dos softwares, você pode usar o Word, sem se sentir preso a ele, pois há programas de uso livre que fazem a mesma coisa. Pesquisa? Antes você se enfurnava em uma biblioteca para pesquisar de fontes limitadas sobre um tema, e às vezes caía em informação defasada ou desencontrada - agora uma pesquisa atenta na internet pode cobrir esta falha.

A relação do escritor com seu próprio método de criação mudou: ele pode começar de qualquer ponto, pode trabalhar o texto puro e formatar depois, sem preocupação ou perder tempo com tabulação; pode refazer o corte de um texto, anexar  ou excluir trechos a qualquer momento. Se puder, ele mesmo vai imprimir seu original. Se puder e escolher assim, ele mesmo vai revisar, editar e publicar seu original sob demanda. Se vai fazer bem estas coisas, não vem ao caso.

Já os editores... Sinto muito, vou pisar em alguns calos. A maioria das editoras parece insistir em ficar na Idade da Pedra. Sim, já foi um acontecimento e tanto algumas terem migrado do Pagemaker para o InDesign no quesito editoração, mas o que faltou, o que ainda está faltando, é uma mudança de atitude. Melhor dizendo, uma abertura para possibilidades diferentes.

Não, não venham culpar a falta de informação. Editoras lidam com informação, precisam fluir junto com ela, e sim, precisam se deixar levar pelo que a tecnologia oferece e pelas possibilidades que a evolução dos meios de comunicação pode proporcionar. Então, alguém me responda, por que raios ainda há essa fissura por originais que tenham obrigatoriamente de ser impressos E enviados por correios, ainda que todos saibamos que este é um método retrógrado, caro, demorado, inseguro, limitador e até anti-ecológico?

As editoras gostam de fazer doce. Sério, sempre há a conversa de que estão cheios de originais para conferir. Eu não estou falando com ironia, mas sim porque é algo que lemos em (quase) todos os sites de editoras. Estes mesmos originais são descartados em proporções massivas. Gente, alguém já parou para imaginar a quantidade de papel que vai pro lixo nestes lugares? Pro LIXO! É o nosso dinheiro E o tempo dos editores que estão sendo jogados fora. Imaginem, se uma editora recebe em uma semana uns (digamos) 10 originais, com uma média de 100 páginas cada, e sabendo que a maioria dos textos é descartada quase de imediato, isso são quase 1000 folhas, não é apenas volume físico, também é tempo e estrutura para lidar com isso.

E sabe o que me incomoda mais nisso tudo? A insistência nessa relação com manuscritos impressos. Isso é um retrocesso, quando existe esta preocupação de estabelecer relações (saudáveis) com os jovens leitores e por consequência, com os jovens autores. Mas esta teimosia com originais impressos é que me deixa espantada. Quer dizer que dói menos jogar vários quilos de papel no lixo do que apertar um botão de Delete no seu computador?

Eu achei que era a única que pensava assim, até a época em que enviei um texto para seleção do Prêmio Benvirá, e procurando informações de como a seleção era feita, esbarrei no blog do Thales Guaracy e encontrei neste post algo muito interessante que vou citar aqui:
“É um prazer encontrar novidades por aí - e o prêmio nos permitiu fazer boas descobertas. Primeiro, que o modelo de enviar originais em papel está superado. Creio que esse é o principal fator para fazer com que nosso prêmio tenha sido recordista em inscrições (1.932 originais, em sua primeira edição), enquanto outros prêmios, como o da Leya, não ultrapassaram 800 concorrentes. Foi gente de todo o Brasil, graças ao acesso democratizado e simples que a tecnologia permite.
A segunda e mais importante descoberta é que existe uma geração de novos bons autores, criados no ambiente cibernético.”
Eu acho que isso é muito mais relevante do que parece, especialmente quando se coloca na balança o método de avaliação do Benvirá, que foi citado pelo mesmo autor, neste outro post. Sim, eles lidam com um volume titânico de originais, imaginem se isso se desse em material físico? E o descarte então? Isso rende até um estudo de impacto ambiental, para os ecologistas de plantão.

Estou quase ouvindo uma voz perguntando ao vento “mas como eu vou ler esses originais no computador??”. Querido editor, já ouviu falar dos E-Readers e tablets? E como lidar com a quantidade? Você não é obrigado a ter recebimento aberto o tempo todo, estabeleça um período, se quiser estabeleça um tema, um formato de arquivo (PDF, RTF, etc) e um formulário curto e básico para o autor se apresentar e apresentar a obra dentro do corpo do email mesmo; anuncie nas redes sociais, saia da sua caverna e veja quanta gente há do lado de fora, com um original na mão. Abra uma conta de email apenas para estes recebimentos, programe um email automático de confirmação de recebimento, que também frisa o longo período de consideração dos originais, isso vai fazer o autor relaxar e muito. Mande seu estagiário (sempre tem um...) fazer uma limpa nesses emails, para deixar só o que é do perfil da editora (se quiser pode gerar um email automático de agradecimento e justificativa neutra de negativa para os recusados, mas isso é opção) e elaborar uma seleção de, vamos supor, 10 originais para serem carregados no seu e-reader, e junto com isso uma lista impressa com o nome do autor e título de cada um destes 10 textos e umas pautas para anotação, para saber quem deletar depois.

Não, eu NÃO estou ensinando o editor a fazer seu trabalho, ou citando uma receita de bolo escrita por quem não sabe cozinhar. Estou citando exemplos, porque cada editora tem seus métodos, sua maneira de lidar com originais. O que eu questiono é a validade e praticidade dessa relação em moldes que faziam sentido 10, 20 anos atrás, mas não cabem nesta década e certamente também não nas seguintes. Ué, não são vocês os intelectuais engajados cheios de opinião formada sobre tudo? Não são estes os formadores da nossa suposta vanguarda cultural? O pessoal que olha pro próprio umbigo pra frente, ligado em tecnologia e na vida alheia mídias sociais?

Vamos lá, mostrem para seus potenciais autores (e leitores!) que não são apenas eles que abraçam as mudanças deste tempo e se integram com todas as novidades do lado de fora da caverna. Pelamordedeus, estamos em 2013... Depender de serviços, métodos e critérios falhos é absurdo, constituindo uma perda de tempo enorme. E tempo é dinheiro, lembra? Se tentarmos justificar a insistência em um modelo defasado apenas porque é como “todo mundo fez/faz” em uma linha de trabalho, então as editoras vão fazer o quê agora? Voltar a exigir originais datilografados...?